As Crónicas de Nárnia: A Última Batalha – C.S. Lewis

O sétimo e último livro de As Crónicas de Nárnia narra o fim daquele mundo fantástico: a sua destruição e o regresso ao vazio a partir do qual fora criado, em O Sobrinho do Mágico.
Antes do fim, todavia, C.S. Lewis conta-nos uma história impressionantemente atual sobre os perigos do populismo, as maquinações por detrás da desinformação e a forma como ambos podem ser instrumentalizados pela perfídia, pela ganância e pela sede de poder de gente sem escrúpulos.
Aparentemente, tal como nos anos 2020, também na década de 1950, tão pouco tempo depois do fim de uma guerra que matou cerca de 80 milhões de pessoas, havia quem se preocupasse com o avanço e os efeitos da demagogia sobre os indivíduos e as sociedades.
Em Nárnia, 200 anos depois dos acontecimentos de A Cadeira de Prata, o ganancioso e matreiro símio Shift engendra um plano para fazer passar o ingénuo burro Puzzle por Aslan, conseguindo, dessa forma, obter dos restantes habitantes a obediência e a adoração que apenas ao grande leão eram devidas.
Insatisfeito, ou simplesmente incapaz de se contentar com o papel de arauto do falso Aslan, Shift convence os seus conterrâneos a destruírem os recursos naturais de Nárnia, tirando proveito da sua exploração e da escravização dos demais. Aqueles que se lhe opõem ou questionam são sumariamente executados em nome de Aslan.
O crescimento da sua influência nefasta e das consequências da sua governação coloca-o em rota de colisão com Tirian, legítimo rei de Nárnia.
Ao descobrir a tirania que se instalou nas suas terras, Tirian acorre de imediato em auxílio do seu povo, sendo, no entanto, derrotado e capturado. Durante o cativeiro, toma conhecimento da extensão do sofrimento das suas gentes, bem como das dúvidas, da fragilidade e da desunião que se instalaram entre elas.
Na sua impotência, invoca Aslan, sem resultado aparente.
Quando menos espera, já de alma entregue ao grande leão, é acometido por uma vívida visão dos grandes reis da antiga Nárnia, a quem pede ajuda.

O despertar não lhe traz nem uma melhoria da situação, nem uma perspetiva de maior longevidade. O seu apelo, contudo, chega até Eustace e Jill, os protagonistas de A Cadeira de Prata, que são transportados para Nárnia.
A chegada dos dois jovens precipita uma série de acontecimentos que resultam na libertação e sobrevivência de Tirian.
A luta continua. E assim permanecem até ao fim.
O que vem depois pertence a Aslan… que nem o narrador me soube contar.
A Última Batalha é um livro interessante, com um final atípico e um tom menos idílico do que os restantes volumes da saga.
Apesar disso, lê-se muito bem e a atualidade das temáticas que aborda coloca-o, talvez como nenhum outro livro da coleção, num curioso limbo entre a fantasia e a realidade.
É uma história sobre o fim de um mundo, mas também sobre a facilidade com que a mentira pode ser transformada em verdade, a manipulação em fé e a exploração em necessidade.
Talvez por isso seja, entre todos os livros de As Crónicas de Nárnia, aquele que mais nos obriga a olhar para dentro.
P.S.: Abaixo partilho convosco um audiobook de A Última Batalha.

