A máquina de fazer espanhóis – Valter Hugo Mãe

Depois de ler Contra Mim e Homens Imprudentemente Poéticos (o primeiro não me agarrou de todo e o outro foi uma experiência agridoce), cheguei finalmente a A máquina de fazer espanhóis.
Antes de mais, quero agradecer às dezenas de leitores que me recomendaram este livro depois das dificuldades que tive com Homens Imprudentemente Poéticos.
Acertaram em cheio.
Diz-se que não há duas sem três e, verdade seja dita, foram precisos três livros de Valter Hugo Mãe para encontrar uma leitura que verdadeiramente me soubesse bem. Uma obra em que, a meus olhos, o inegável talento do autor se combina com um estilo narrativo que não se torna maçudo pelo uso recorrente de ornamentos literários.
Não quer isto dizer que, estilisticamente, A máquina de fazer espanhóis me assente como uma luva, mas já lá vamos.
Começo por dizer que acompanhamos um barbeiro, já na casa dos oitenta, confrontado com a perda da companheira de uma vida e que, como consequência, se vê transladado para um lar: o Feliz Idade.
E é aí, nos corredores, quartos e pátio deste lar que decorre o grosso da narrativa.
E se o cenário escolhido é muito menos místico e fantástico do que o Japão rural de Homens Imprudentemente Poéticos, a vivência do Sr. Silva e comparsas dificilmente poderia ser mais rica, dinâmica e cheia de humanidade.
Os personagens que Valter Hugo nos apresenta são um prato, cheios das idiossincrasias que fazem o Homem, de virtudes e pecados, de paixões, medos e contradições.
Após o início, no mínimo, atribulado, acompanhamos o Sr. Silva ao longo, não só, do seu luto, mas da sua adaptação e integração na comunidade do Feliz Idade.
Durante os anos em que o acompanhamos vamos vendo pequenas vitórias, alguns relapsos, rindo com galhofices e chorando com inevitáveis despedidas, conhecendo a história de um homem que, na sua velhice, se redescobre e ao seu papel no mundo, nos e com os outros que, com ele, partilham esta fase avançada do caminho da vida.
A máquina de fazer espanhóis é um verdadeiro carrossel de emoções, de histórias dentro de histórias, de vivências trágicas e alegres, e de transformação, escrito com enorme mestria e com um ritmo que, no meu caso, tornou a leitura envolvente de início ao fim.

Ainda assim, deixo uma nota que poderá ser relevante para alguns leitores.
Este romance integra a chamada tetralogia das minúsculas, conjunto dos quatro primeiros romances de Valter Hugo Mãe, escritos integralmente, ou quase, sem recurso a maiúsculas.
Visualmente, esta opção torna mais difícil distinguir o final de um parágrafo do início do seguinte, criando grandes blocos de texto que poderão ser menos digeríveis ou apetecíveis para alguns leitores.
Feita essa ressalva, e acreditando que aquilo que para uns poderá constituir uma dificuldade será precisamente uma virtude para outros, considero A máquina de fazer espanhóis uma leitura altamente recomendável.
Pela riqueza emocional das personagens, pela naturalidade dos diálogos, pela profundidade das reflexões sobre envelhecimento, perda, amizade e identidade, e por uma narrativa que flui com enorme facilidade, este foi, sem dúvida, o livro de Valter Hugo Mãe que mais prazer me deu ler até ao momento.
Uma boa surpresa!
A todos, votos de boas leituras!
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