
Carrie – Stephen King
Continuando a minha viagem pela bibliografia de Stephen King, dei recentemente tempo e olhos a “Carrie”, o primeiro livro publicado por este autor nos idos de 74.
Antes de mais paleio, quero realçar dois pontos que acho importantes para a navegação deste texto e, para os mais aventureiros, do livro que nele refiro.
“Carrie” é extremamente bem escrito, impressionantemente até, tendo em conta que foi a primeira obra das mais de seis dezenas que este veterano nos tem trazido, publicada quando tinha apenas 27 anos. O que lhe faltava em experiência não lhe faltava nem em talento, nem em imaginação.
Não obstante, este livro foi, por larga margem, a mais violenta leitura que me passou pela vista. É certo que isto das sensibilidades é coisa muito pessoal, e cada um tem as suas, mas “Carrie” exibe níveis de brutalidade que, a meus olhos, fizeram com que livros como “Pet Sematary” do mesmo autor ou a saga “A Song of Ice and Fire” de George Martin pareçam coisas para meninos, quanto à violência que retratam.
Feito que está o aviso, prossigamos.
A temática central de “Carrie” é bullying.
Ponto curioso, mero aparte, é que o que uns tomam por modernice (a violência e abusos psicológicos e emocionais em contexto escolar), inspirou um livro que lançou uma das mais prolíferas carreiras da literatura mundial, em 1974 (há 51 anos atrás, portanto).
Moderno à brava.
Posto isto, Carrie White é uma finalista de secundário com extremas dificuldades de socialização, excesso de peso, e educação religiosa ministrada por um inquisidor do século XVI, a quem chama mãe.
Nesta obra, Stephen King aborda de maneira sobejamente gráfica, a puberdade, devaneios vários da adolescência (que é tão pródiga em devaneios), comportamentos de risco, vingança, sistema de ensino e suas limitações, extremismo religioso, tortura física e psicológica, entre outros elementos que tornam este livro um cocktail de emoções em estado bruto, às quais é difícil ficar-se acomodado ou indiferente.
O livro tem também uma particularidade pouco comum, quanto ao seu formato, uma vez que usa uma estrutura epistolar, na qual os acontecimentos são narrados através de um conjunto de publicações (artigos de jornal, cartas, livros e depoimentos) posteriores ao acontecimento que narram, neste caso, o grande incêndio em Chamberlain, no estado do Maine (E.U.A.) que vitimou mais de 400 pessoas e que marcou de forma indelével a modesta povoação.
Um pequeno livro de 200 páginas, que mistura com mestria elementos de thriller, drama, fantasia e horror e que, apesar da brutalidade do conteúdo, proporciona tremenda experiência de leitura, pela habilidade do escritor em construir uma história que prende o leitor e é povoada por personagens muito bem construídos, cheios do melhor e pior que a humanidade tem para oferecer.
Não é certamente para todos os gostos e sensibilidades, mas é uma leitura única e muito intensa.

P.S.: “Carrie” inspirou várias adaptações cinematográficas, a primeira logo em 1976, do realizador Brian De Palma, uma sequela deste primeiro filme, de nome The Rage: Carrie 2, em 1999, de Katt Shea, uma nova adaptação por David Carson, em 2002 e uma terceira em 2013, por Kimberly Peirce. Partilho os trailers de todas, abaixo:

