
O Sem Pavor – António da Costa Neves
Sou crente convicto de que a leitura de uma obra literária é, na esmagadora maioria das vezes, um processo de aprendizagem, mesmo quando a experiência não é agradável. Não gostar de algo que leio é um risco que aceito, principalmente quando decido ler autores que desconheço.
Não é o que desejo, mas faz parte.
Foi o caso com “O Sem Pavor”, de António da Costa Neves.
Ficção histórica sobre personagem real do século XII, ademais Português, tinha já uma aura de interesse, para mim, de que outros livros não beneficiam à partida.
Ainda assim, “O Sem Pavor” ficou muito aquém das espectativas.
Em causa, quero deixar claro, não estão nem o conhecimento histórico, nem tampouco a habilidade para a escrita do autor.
Apesar desses dois critérios para uma boa ficção histórica estarem presentes, pareceram-me claramente insuficientes, perante tudo o que faz falta, para que este seja um livro prazeroso e estimulante de ler.
Do ponto de vista de conceito da obra, há uma falácia, que em nada favorece a sua apreciação, pelas espectativas desajustadas que cria. O livro é apresentado, em todos os seus elementos (do grafismo ao resumo do verso), ao leitor como uma obra narrativa ficcional e não como uma obra biográfica.
A segunda página do livro apresenta a coleção em que se insere, “A História de Portugal em Romances”, descrição da qual, cito: Venha descobrir a nossa História, não no tom pesado dos historiadores, mas pela pena inspirada dos grandes romancistas.”
Confirma a Saída de Emergência, editora da obra, a espectativa de que o leitor se encontra perante uma obra ficcional, inspirada obviamente em pessoa e acontecimentos reais, e não num trabalho histórico e biográfico da personagem histórica Geraldo Geraldes.
Neste ponto, quero deixar claro que, qualquer um dos dois estilos referidos, sendo muitíssimo diferentes, me agradam enquanto leitor ávido, entre outras temáticas, por história de Portugal.
Acontece que “O Sem Pavor” é conceptualmente coisa híbrida, metade obra de ficção, metade crónica histórica, na qual fraco esboço narrativo se entremeia com páginas infindáveis de relato histórico, ao estilo biográfico.
Não é, portanto, romance ficcionado, nem investigação histórica per se.
E ainda que não rejeite esta quimera por princípio, o resultado final, neste caso, é muito fraco.
Do ponto de vista narrativo, enquanto obra de ficção, apresenta imensos problemas, desde a inexistência de evolução nos personagens, à pobreza da caracterização dos mesmos, ou até à ausência de motivações ou voz própria dos protagonistas.
Tristemente, as personagens veem-se reduzidas a veículos de despejo de informação histórica, sem qualquer sentido de identidade ou personalidade. Reflexo disso mesmo, são as inúmeras cenas de diálogos em que é indiferente se quem fala é personagem A, B ou C, porque falam todos da mesma maneira, sendo desprovidos de individualidade, carácter, objectivos e consequentemente, interesse para o leitor.
Os diálogos são, por tudo isto, fraquíssimos, muito pouco cativantes ou verosímeis.
A quebra de ritmo a cada par de páginas de narrativa para dar lugar a vintém de explicação histórica, torna a leitura chata e monótona, sendo difícil de investir ou empatizar com protagonistas que na verdade são secundários, em volume, ao despejo de informação.
Já enquanto obra de investigação histórica, de caracter biográfico, o resultado é igualmente pobre, recheado de “apartes” e contos ficcionados que em nada beneficiam e credibilizam a análise histórica que se quer rigorosa, objectiva e imparcial.
Posto isto, e cerca de duzentas e trinta páginas depois, fiquei sem saber se António da Costa Neves é “um grande romancista” como anuncia a editora, mas contraí certeza de que quase 18€ e algumas horas de tempo livre são melhor aproveitados a ler outra coisa qualquer.
Fica a partilha e, se me souberem indicar uma obra quer de ficção histórica, quer de biografia, sobre Geraldo Geraldes, o sem pavor, agradeço-vos desde já, pois parece, sem sombra de dúvida, sujeito curioso.
Boas leituras!


