
Memórias de um Prisioneiro na Guerra Colonial – António Júlio Rosa
Há uns dias pediram-me sugestões de leitura sobre a guerra colonial Portuguesa (1961-1974), tema no qual, confesso, não sou mais douto do que o que é comum entre os meus conterrâneos, nem particularmente experiente enquanto leitor.
Ainda assim, ocorreu-me leitura que achei interessante do “Memórias de um Prisioneiro na Guerra Colonial” de Júlio Rosa (que, entretanto, aproveitei para reler), que conta a história de um jovem Júlio, na altura com 21 anos, que se vê capturado por guerrilheiros do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo-Verde) na Guiné Bissau, onde o serviço militar obrigatório, o destino e a guerra colonial o largaram, no ano quente de 1967.
A história tem início no inverno rigoroso das terras altas da Beira, em Abrunhosa-a-Velha, Mangualde, de onde o autor é original, e tem um início quase pitoresco, não incomum em literatura de época do meio do século XX em Portugal, com paisagens, memórias e vivências quase idílicas (ou assim sentidas em retrospectiva).
O fim da adolescência era marcado por ritual de passagem, que invariavelmente condenava a juventude masculina a abandonar as suas terras e gentes, muitos dos quais para sempre, pelo menos em vida: o serviço militar obrigatório e a guerra colonial.
No caso de Júlio Rosa a instrução militar levou-o a Mafra primeiro e, mais tarde a Vendas Novas, onde ingressou na Escola Prática de Artilharia. Acalentava a esperança de que sucesso e destaque na formação para atirador de artilharia o isentassem de combate nas linhas da frente.
Não aconteceu como queria, e apesar de se ter feito oficial de artilharia, foi mobilizado como atirador sim, mas de G3 na mão, para as selvas da Guiné-Bissau.
Após a fatídica notícia, acompanhamos a viagem marítima, com embarque no Cais da Rocha do Conde de Óbidos, diante do, hoje, miradouro com o mesmo nome, junto ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e as passagens pelos arquipélagos da Madeira e Cabo Verde até à chegada a Bissau.
Sobre a experiência na Guiné (o grosso deste livro) não me vou alongar, para não vos tirar o prazer da descoberta, mas aproveito para enaltecer o quanto esta história autobiográfica tem de descoberta/aventura, mistério e drama, com pitadas de filmes de espionagem, à 007, sem o glamour, que a guerra real efectivamente não tem.
Uma história que retrata os testemunhos e vivências nus e crus de uma geração que viveu e morreu entre os horrores perpetuados no continente Africano pela guerra colonial; uma narrativa de resiliência física e emocional de um jovem que foi prisioneiro de guerra durante 3 anos em condições que em muito ameaçaram a sua sobrevivência; e uma mostra assustadoramente actual de como desavenças políticas/argumentativas de uns poucos se transformam em morte e destruição, não dos que a mandatam, mas dos que nela combatem ou, sendo civis, por ela se vêm envolvidos.
“Foi o período mais difícil da minha vida!… Tinha vinte e quatro anos… ainda poderia ter pela frente um futuro risonho!… Felizmente isso aconteceu!”
História real de sobrevivência, superação e entreajuda, é um relato extremamente humano da vivência da guerra colonial, na primeira pessoa, que será certamente relevante para quem é curioso, estudioso ou interessado neste período tão negro da história Portuguesa e dos países Africanos onde decorreu.
Boas leituras!

P.S.: O jovem Júlio Rosa sobreviveu à guerra e ao regime que a impôs, tendo falecido em 2019 (aos 72 anos) após uma vida dedicada ao ensino e ao desporto.
Os interessados podem comprar este livro directamente no site da Edições Colibri ou nas livrarias Almedina e Wook.
O livro está disponível para consulta na Biblioteca Nacional.

