
As Causas do Atraso Português – Nuno Palma
“Porque é Portugal hoje um país rico a nível mundial, mas pobre no contexto europeu?” – é a primeira pergunta que nos coloca esta obra, na linha inicial do seu preâmbulo.
A primeira de muitas, às quais tenta responder com extensa e rigorosa investigação histórica. O autor avalia o impacto económico da era dos descobrimentos, da descoberta de ouro no Brasil, da inquisição, do terramoto de 1755, das invasões francesas, da guerra civil entre liberais e absolutistas, dos 60 anos de ocupação castelhana, entre tantos outros marcos de Portugal entre os séculos XVI e a actualidade.
Durante este bem organizado processo, preocupa-se sempre em fornecer dados que permitem acompanhar duas evoluções paralelas: a do desenvolvimento económico Português ao longo do tempo, e a comparação deste mesmo, em cada época, com os nossos vizinhos da europa ocidental.
O desenvolvimento da população e das instituições políticas ao longo dos últimos 400 anos é também escrutinado a fundo, com o propósito de identificar políticas e protagonistas com impacto quer nos momentos de crescimento, quer nos momentos de decréscimo económico do país.
Identifica e analisa, por exemplo, períodos de grande crescimento económico, como o final do século XVII e início do século XVIII, fornecendo quer dados, quer considerações sobre suas causas e consequências. Partilho, à laia de levantar de véu, que em 1690 o rendimento por pessoa em Portugal era mais do dobro do de Espanha, e marginalmente inferior ao de Inglaterra. Em 1790, cem anos depois, em pleno inverter de tendência, o rácio Portugal/Espanha ainda é favorável para Portugal, não devido a qualquer progresso da economia nacional, antes a um desenvolvimento muito ténue da economia espanhola, mas Inglaterra já dista de Portugal tanto quanto o nosso país de nuestros hermanos.
O crescimento económico do período entre 1640 e 1750 só volta a encontrar paralelo em Portugal, já em tempos democráticos, tendo o PIB per capita relativamente à média europeia disparado de 52% em 1972, na antecâmara da revolução dos cravos, a 25 de Abril de 1974, para 94% em 1992, representando não só um crescimento tremendo da economia em si, mas uma convergência sem par com a europa, nos últimos 200 anos.
Infelizmente, tais períodos de bonança mostram-se curtos, comparados com o impacto dos períodos economicamente deprimidos da nossa história, entre eles, a 2ª metade do século XVIII, a totalidade do século XIX e a primeira metade do século XX, e em escala incomparavelmente menor, em gravidade e duração, o século XXI.
Os 1800s foram de tal maneira miseráveis para Portugal que, em 1900 o PIB per capita do país ainda era inferior ao de 1750, altura em que os resultados da má governança começavam a inverter a tendência de crescimento do ciclo económico. Para ilustrar o quão nefastos foram estes 150 anos, o autor mostra que, em 1750, neste indicador, Portugal superava França, Alemanha, Suécia, Itália e Espanha, ficando neste comparativo, atrás apenas de Inglaterra e Holanda. Já em 1900, Portugal não só estava pior que em 1750, como posicionava-se na cauda de todos os países supracitados. França, 4º em 8, em 1900, tinha um PIB per capita, mais de 2x superior ao português, e o líder, Inglaterra, quase 3,5x maior que o de Portugal.
De forma incisiva e rigorosa, o economista e historiador, desafia uma nebulosa e geralmente romantizada narrativa de declínio histórico, centrando-a nas políticas e decisões tomadas por variadíssimos governantes, evidenciando os efeitos positivos e negativos que a economia e a sociedade Portuguesas obtiveram em resultado dessas mesmas decisões e políticas.
Concorde-se ou não com as conclusões que o autor retira das múltiplas análises que faz, esta obra, quer pela metodologia, quer pela abrangência, tem valor para gerar discussão académica entre historiadores e economistas, na reanálise das causas históricas do atraso Português em relação ao resto da Europa, sentido ainda hoje, em 2025, neste jardim à beira-mar plantado.
Uma leitura que recomendo para os apreciadores do tema, e claro, para curiosos da história de Portugal e economia.
Um trabalho investigativo de valor e um excelente livro!

P.S.: Este livro, da Editora D. Quixote, pode ser encontrado num manancial de livrarias como a FNAC, a Bertrand, a WOOK e a Note!, mas deixo-vos o link para a Almedina, pois está, neste momento, com um desconto de 20% e apresenta o preço mais em conta que consegui encontrar.
Boas leituras!

