
Crónicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa – C.S. Lewis
Em plena Segunda Guerra Mundial, quatro crianças — Peter, Susan, Edmund e Lucy — são enviadas de Londres para o campo, em antecipação aos bombardeamentos iminentes sobre a capital inglesa. Este contexto histórico real serve de ponto de partida para O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (publicado em 1950), o primeiro volume das Crónicas de Nárnia, obra maior do escritor irlandês C.S. Lewis.
O cenário, à primeira vista enraizado no realismo, é rapidamente subvertido. O quotidiano britânico desaparece atrás de um velho guarda-fato, e com ele, a lógica do mundo conhecido. É em Nárnia, um universo paralelo povoado por faunos, feiticeiras, leões falantes e afáveis castores, que se desenrola a verdadeira narrativa.
C.S. Lewis, amigo íntimo e correspondente de J.R.R. Tolkien, partilhava com este a crença no valor do mito e da imaginação como instrumentos para comunicar verdades profundas. O seu estilo, acessível mas densamente simbólico, lembra O Hobbit, embora a Nárnia de Lewis se afirme com identidade distinta: um espaço descaradamente mágico, onde a luta entre o bem e o mal tem consequências reais, tanto para o mundo encantado como para o quarteto de protagonistas que nele transitam.
Este primeiro volume é notável pela forma como funde elementos clássicos: a estrutura do conto, o sabor a fábula, a moralidade explícita, com inovações que viriam a moldar a literatura fantástica do século XX: a criação de um mundo secundário coerente, a presença de personagens infantis como protagonistas de batalhas épicas, e a justaposição de maravilha e perigo. Ao contrário dos contos tradicionais, aqui a fantasia não é apenas um cenário: é um campo de prova, onde a coragem, a lealdade e o sacrifício se medem a cada passo.

Importa notar que O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa insere-se num momento histórico e literário de grande transformação. A geração que viveu as guerras mundiais traduziu os seus traumas e esperanças em novas formas narrativas. Autores como Lewis, Tolkien, Saint-Exupéry, Vonnegut ou Frank Herbert partilharam esta urgência de re-imaginar o mundo, criando universos paralelos onde a condição humana pudesse ser reavaliada à luz do extraordinário. Nárnia é, nesse sentido, mais do que um refúgio da realidade: é um espelho deformante que revela, através da fantasia, o essencial da experiência humana.
A leitura de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é, assim, simultaneamente prazerosa e relevante. As crianças maravilham-se com os animais falantes; os adultos encontram nas entrelinhas alegorias sobre poder, cooperação, fé, redenção e perda. Lewis oferece uma linguagem clara, um ritmo envolvente e personagens que, mesmo em contextos fantásticos, conservam a fragilidade e a complexidade humanas.
Este livro não é apenas uma porta de entrada para um mundo imaginário. É, também, uma das chaves que ajudaram a abrir o caminho para uma nova forma de contar histórias, histórias que ousam combinar a maravilha do impossível com a urgência do essencial.
Se estiverem prestes a perder-se em terras sem mapa, pode ser que nos encontremos debaixo de um certo candeeiro, onde faz sempre frio e nunca é Natal. Tragam agasalho. E, claro, acepipes.

P.S.: Abaixo deixo-vos o trailer do filme de 2005, de Andrew Adamson: The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe.

