
Circe – Madeline Miller
O mês de Junho é para mim, como para muitos, um mês de fechos e conclusões, de encerrar de ciclo. Há exames, termina o ano lectivo e sobram pouca cabeça, tempo e energia para mais do que esse processo exige.
Este ano, todavia, sem sair de Lisboa, embarquei numa viagem que não fazia há anos. Destino: Grécia antiga!
Capitaneava o trirreme a escritora Madeline Miller que, após se estrear com “O Canto de Aquiles” (2011), livro que ainda não tive oportunidade de ler, expandiu o seu universo literário com “Circe” (2018) e foi na companhia desta afamada feiticeira da antiguidade que passei umas boas horas, este mês.
“Circe” é um drama/romance que nos leva a acompanhar essa modesta divindade da mitologia grega, personagem menor na “Odisseia” de Homero e na “Metamorfoses” de Ovídio, mas central neste livro da escritora americana.
Bastante interessante o modo como Madeline Miller desenvolve as suas personagens com base em mitologia histórica, mas extravasa as suas personalidades e feitos, as relações entre Deuses e destes com os mortais.
Num mundo em permanente tensão, em que Deuses digladiam Deuses por influência sobre o destino dos mortais, pelo favor de heróis e pela sorte de reinos, nos salões de Hélio nasce Circe. Pequena, frágil e inapta, é filha do brilhante e poderoso senhor do céu diurno e da ninfa Perseide, filha de Oceano.
Desde tenra idade é oprimida pelas titânicas expectativas da sua ascendência, as quais invariavelmente frustra.
A sua infelicidade, ainda que quase permanente, não lhe tolhe a capacidade de questionar, desafiar, agir e, consequentemente, crescer, ainda que a custo, com erros pagos com sangue, suor e sublimação de lágrimas. Circe vê o mundo e os seus habitantes, tanto os divinos como os mortais, de uma maneira diferente dos demais Deuses e revela também ela, uma humanidade sem igual entre os seus pares.
Fatal como os fados, o seu amor pelos mortais, a sua empatia e as emoções que o intercâmbio lhe trouxe, levaram-na ao exílio, expulsa por seu pai para a remota ilha de Ea, onde viveu durante séculos até ser açambarcada por uma história maior.
Curiosamente, o seu desterro foi a semente da sua liberdade.
Em Ea, Circe aprendeu a ser.
Ganhou dimensões, valências e experiências das quais fora privada por uma eternidade de subserviência e subjugação.
Ao longo de quase 450 páginas acompanhamos a tumultuosa caminhada de Circe face à emancipação, mais do que a conquista de uma liberdade romanceada, um conjunto intenso de dor, prazer, aprendizagem, sacrifício e determinação em viver uma vida na qual as escolhas, acertadas ou não, lhe pertencem.
A escrita é de grande qualidade, a leitura é bastante ritmada, personagens e mundo são bem construídos e achei, por demais interessante, a maneira como a autora constrói uma narrativa tão actual e relevante para quem vive no século XXI, baseada num misto de personagens míticos e acontecimentos históricos do primeiro milénio antes de Cristo.
Se procurarem leituras para o verão que aí vem, recomendo-vos esta obra com sabor a Mediterrâneo.


