
Hoje escrevo sobre um fenómeno que tem semeado sentimentos de insegurança quanto à robustez da democracia em Portugal: o crescimento do CHEGA no Parlamento da República e a sua crescente relevância nas dinâmicas políticas do país.
Não trago neste texto soluções, nem imediatas, nem a prazo. Não as tenho.
Partilho antes uma humilde opinião que me parece ter pouco eco no debate público: a necessidade de distinguir o que é o CHEGA, enquanto partido político e ideológico, de quem nele vota. Essa distinção é essencial para proteger a democracia e reconstruir pontes no tecido social português.
É difícil assistir ao crescimento de um partido com características marcadamente autocráticas, que se alimenta da polarização constante entre “nós” e “eles”. Não importa de que matéria se trata, nem de quem sejam os “eles”. Se não existem, inventam-nos. Um partido para quem o importante é criar alvos, culpados, um inimigo comum. Porque, numa lógica binária, em que tudo é preto e branco, se os outros são os culpados, não o somos nós.
O CHEGA apresenta soluções para tudo, ainda que assentes em simplificações perigosas e incoerências gritantes. Clama por justiça e fim da impunidade, mas um terço dos seus deputados enfrenta processos judiciais por crimes diversos: agressões, corrupção, violação, difamação, imigração ilegal, plágio. Clama por respeito às mulheres, mas insulta deputadas com epítetos como “vacas”, “aberrações” ou “drogadas”. Exige combate à corrupção, mas acolhe entre os seus eleitos, pessoas envolvidas em contenciosos judiciais relacionados a dívidas de cinco e mais dígitos e falcatruas de cariz económico ou político. Defende a Segurança Social, mas discrimina com base em raça, origem e passado familiar. E tudo isto sob a liderança de alguém que proclama a família como pilar, mas que não tem filhos.
Este é o partido que se propõe salvar Portugal. De quê? De quem? Nunca se esclarece.
O universo de quem vota CHEGA, no entanto, é mais complexo e merece um olhar distinto.
Nas eleições desta semana, o partido arrecadou 22,5% dos votos.
É possível, até provável, que, ao longo das quatro eleições legislativas em que participou, um quarto da população votante tenha, em algum momento, escolhido o CHEGA. Um em cada quatro votantes. Isso é preocupante. Mas não significa que existam 1.345.575 nazis em Portugal.
Ideologias extremistas existem no país, mas são minoritárias. Se fossem tão relevantes quanto se teme, teriam alavancado o sucesso de partidos como o PNR (Partido Nacional Renovador), que já cá anda desde 2000, rebatizado “Ergue-te” em 2020, cuja linha ideológica é abertamente supremacista e inspirada no fascismo histórico. Este partido defende, entre outras medidas, revogar a lei da paridade, restringir o direito de voto a “portugueses de raiz”, proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou facilitar o acesso a armas a cidadãos classificados como “portugueses de sangue”.
Apesar da clareza do seu programa, o PNR/Ergue-te teve resultados eleitorais residuais. No seu melhor momento, em 2015, conquistou 0,5% dos votos. Este domingo, teve 0,15%. Isso mostra que estes tipos de ideologias existem em Portugal, mas que têm baixíssima expressão. Sugere também que o voto no CHEGA não é, na esmagadora maioria, um voto de ideologia extrema, mas sim de protesto, desilusão ou revolta.
Os resultados eleitorais demonstram-no geograficamente: nas últimas eleições, o CHEGA venceu em distritos como Portalegre, Évora e Setúbal — regiões tradicionalmente associadas ao voto à esquerda, especialmente no PCP e no PS. Estes distritos têm uma forte herança de luta operária e sindical, sendo historicamente bastiões da resistência antifascista e da defesa do Estado Social. A vitória do CHEGA nestes territórios não se explica, portanto, por uma viragem ideológica para a extrema-direita, mas por um profundo sentimento de desilusão com as alternativas existentes e um voto de rutura com o sistema que não tem respondido às necessidades da população.
Quem vota CHEGA são, na sua maioria, pessoas comuns: trabalhadores precários, reformados com pensões insuficientes, jovens que não conseguem sair de casa, famílias que trabalham 40 horas por semana e mesmo assim não chegam ao fim do mês, pequenos empresários fustigados pelo sistema fiscal, cidadãos descrentes na justiça ou na classe política, e, sem dúvida, também alguns que querem ver tudo a arder.
Mas não são todos iguais. Não devemos colocar 1,3 milhões de pessoas no mesmo saco. A democracia é um sistema que só sobrevive com cooperação e escuta mútua. Impor a vontade de uns sobre outros, tratar todos os eleitores do CHEGA como se fossem inimigos da democracia, apenas reforça a narrativa do partido e aprofunda as divisões.
A alternativa a este ciclo de radicalização não está em purgas ideológicas ou cruzadas antifascistas mal orientadas. Parece-me ter mais hipóteses de sucesso através da resolução dos problemas reais: habitação, salários, justiça, saúde, educação, qualidade de vida.
Se a próxima governação será capaz de alcançar as melhorias de que o país e a população precisam, as reformas necessárias e o combate às desigualdades, o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: terá de fazer melhor do que tem sido feito até aqui.
É preciso mostrar que há respostas políticas, mas cívicas também, fora do grito, do medo e do insulto.
Acredito que o crescimento do CHEGA não se combate apenas com indignação, combate-se principalmente com resultados. Com uma política que prove ser capaz de melhorar a vida das pessoas e de unir o que está fragmentado. A democracia não se salva nas trincheiras, mas nas pontes que ainda conseguimos construir.
Fica o pensamento e a esperança.

