
Pet Sematary – Stephen King
Acabei 2024 e comecei 2025 na companhia da minha mais recente aventura literária: Pet Sematary de Stephen King.
Confesso que por falta de experiência de leitura do género “Horror” e por vivências pouco interessantes no cinema desse mesmo género, lancei-me à leitura com um misto de curiosidade e expectativas humildes, assim como quem quer ver o que a coisa dá, sem esperar mundos e fundos da obra, por mais bem-conceituado que seja o autor.
O meu contacto com Stephen King, que se resume à saga “The Dark Tower”, dava-me garantia de escrita de excelência mas não me enquadrava neste estilo mais macabro, pelo qual ele é conhecido e reconhecido, e do qual “Pet Sematary”, assim como “The Shining” (que ainda não li) são, supostamente, ex-líbris.
Fui à descoberta e não me faltaram surpresas.
A maior, talvez tenha sido o quão “normal” é a construção e apresentação dos personagens e do enredo, da história mais perturbadora (nas palavras do próprio) que o “Rei do Horror” escreveu até hoje.
Não há fogo de artifício, não há truques de magia, nem tão pouco há características disruptivas ou excepcionais nas pessoas que nos são apresentadas.
Existem quatro pessoas, dois adultos e duas crianças, que além dos nomes, experiências e vicissitudes da vida que os fazem únicos (como a todos nós), são semelhantes a tantas outras famílias que conhecemos, vemos ou lidamos com, no dia-a-dia.

O livro foi publicado em 1983 e escrito algures na mudança de década, transportando os leitores para um tempo e espaço reais, pouquíssimo deslocados do quotidiano dos Norte-Americanos da época, o que aumenta a sensação de familiaridade de uma história que é nada do que parece.
A relevância dada às dinâmicas familiares que a maior parte das pessoas experienciou em algum grau: mudança de cidade, de trabalho, início da escola, crescimento dos filhos e as pequenas conquistas que vão fazendo, os momentos ternos que guardamos para sempre, as inseguranças e discussões, os desafios superados, humanizam este punhado de almas cuja vida acompanhamos e, de maneira brilhante dissimulam os lampejos de metafísico e sobrenatural que o autor vai introduzindo através do mais comum dos medos: a morte.
Tão orgânica e subtil é a arte com que Stephen King desenvolve a narrativa que, durante sólidos 90% do livro, dei por mim a pensar, sem desprimor, estar a ler um drama familiar, tremendamente bem escrito, é certo, mas não um horror thriller, como me fora anunciado.
Se até aqui havia lido sem sacrifício, posso dizer-vos que a recta final foi devorada, tal o magnetismo com que prende e a vontade que dá de ver o inevitável desfecho, que se se sente antes de imaginar, e que se imagina antes de ver.
E quando se vê… vê-se o que se espera e o que não se imagina (lá há-de haver imaginações mais ricas que a minha), que o autor não dá ponto sem nó e eleva o desfecho a um patamar, por mim, inesperado.
Em suma, adorei a leitura, tirei mais do que esperava, recebi uma lição de como por vezes o horror menos espalhafatoso e mais perto da vivência do comum dos mortais pode ser o mais assustador e, se alguém me souber recomendar leituras deste estilo (do mesmo ou de outro autor) agradeço imenso a partilha.
Obrigado, bom ano e boas leituras!

P.S.: Abaixo partilho os trailers dos dois filmes a que este livro deu origem: Pet Sematary (1989) de Mary Lambert e Pet Sematary (2019) de Kevin Kolsch e Dennis Widmyer.


Eu que tb não gosto do género terror fiquei tentada a ler. Obrigada pela crónica sugestiva
A qualidade de escrita é notável, e ele consegue gerir o ritmo narrativo de uma maneira tal que a história nunca se torna enfadonha. Talvez a melhor leitura que fiz este ano. É mesmo muito bom. 😉