
Não é coisa exclusiva deste ano de 2025, mas conversa sobre insegurança (raramente se discute segurança) tem grassado nos últimos meses, impulsionada por meios de comunicação social e certo grupo parlamentar com propensão para o trágico, real ou ficcionado.
A reboque da mesma carroça fala-se muito de emigração, porque ciganos não os há em quantidades suficientes e com armamento militar capaz de convencer maiorias, de que esta etnia é a fonte de todos os problemas do país.
E é de atentar a esta construção: insegurança E imigração, porque claro está que 1) Portugal é um país extremamente inseguro; 2) A situação do país está obviamente a deteriorar-se a olhos vistos; 3) A causa de ambos é uma política de emigração descontrolada que mais do que deixar, convida qualquer um a entrar, venha de onde vier e nas condições que quiser; 4) Em Portugal abundam elementos criminosos estrangeiros a fazer o que querem e é por isso que o país está como está.
Só que não.
É aliás a característica mais chata desta narrativa que tanto se quer vender hoje em dia. Além de muito pouco original e importada (onde é que está o apoio aos produtores locais?), teima em não corresponder à realidade.
Os dados mais recentes da criminalidade em Portugal (PORDATA e INE) mostram que em 2022 e 2023 houve, de facto, um aumento de criminalidade, de quase todas as tipologias, em comparação com 2020 e 2021.
Acontece que estes dois anos específicos, 2020 e 2021, foram anos de confinamento, devido à pandemia COVID-19, resultando no período com criminalidade mais baixa dos últimos 30 anos.
Finda pandemia e confinamento, os números, como esperado, subiram.
Há a dizer, no entanto, que os valores da criminalidade em Portugal em 2023 (ainda não estão publicados os de 2024), são inferiores a todos os anos entre 2002 e 2013.
O pico de criminalidade foi 2008, ano em que há não há Português que não se lembre de como isto parecia o Afeganistão. Se não me falha a memória até no parlamento se falou Persa uns meses, a ver se a coisa pegava.

Não foi o caso. E curiosamente, o pico de criminalidade que se registou nesse ano não se resolveu com medidas de segregação, pessoas encostadas à parede, nem com o fecho de fronteiras. Mas resolveu-se, porque em 2016 havia, comparativamente, menos 100.000 crimes/ano.
Isto não é o mesmo que dizer que não existe criminalidade em Portugal. Claro que existe, e a não ser para os profissionais do sector, infelizmente.
Não existe, no entanto, nem em quantidade, nem em tipologia que tornem Portugal um país inseguro, pelo menos em comparação com os restantes países do planeta Terra (admito que com as inseguranças na cabeça de cada um, a situação possa ser diferente).
Portugal foi em 2024 o 7º país (de 163) mais seguro do mundo, segundo o GPI (Global Peace Index), e desde que este foi criado, em 2007, nunca esteve fora do top-20.
A próxima fábula prende-se com esta ideia, tão real como as anteriores, de que a criminalidade em Portugal é causada por emigrantes ilegais que vêm aos magotes converter o país ao Festival da Canção da Eurovisão.
Reforçando a ideia de que, ainda que em escala comparativamente pequena, criminalidade violenta existe em Portugal, partilho algumas manchetes muito recentes (2023 em diante), que relatam crimes violentos e seus perpetuadores:
1 Fevereiro de 2023: “Trinta detidos por crimes violentos associados às claques de Benfica e Sporting”, pelo Correio da Manhã.
Entre as bem-feitorias relatadas incluem-se posse de arma de fogo, roubo, dano qualificado e participação em rixa.
31 de Janeiro de 2024: “Homicídio, terrorismo, violação e tráfico de droga entre os crimes que ensombram claques”, pelo Diário de Notícias.
A notícia relata aventuras e desventuras de 44 “adeptos” do Sporting Clube de Portugal, 9 dos quais condenados a penas de prisão efectiva. Entre eles o ex-líder da Juve Leo, Fernando Mendes.
26 de Junho de 2024: “Violação, agressões, roubos e desobediência. Todos os crimes que levaram à condenação de vários membros dos No Name Boys”, pelo Observador.
O artigo começa com um relato de um crime ocorrido em abril de 2022, no qual um jovem de 16 anos foi violado por um grupo de “adeptos” do Sport Lisboa e Benfica, afectos à claque No Name Boys.
6 de Agosto de 2024: “Ex-líder dos Super Dragões e mulher acusados de 31 crimes, 19 dos quais de coacção agravada”, pelo Público.
O artigo detalha o caso de 12 arguidos, “adeptos” do Futebol Clube do Porto, ligados à supracitada claque, acusados de, entre outros actos cívicos e de boa vizinhança: ofensa à integridade física, atentado à liberdade de expressão, instigação pública a um crime e posse de arma proibida.
22 de Dezembro de 2024: “Polícia ferido junto a restaurante em Sintra onde claque dos No Name Boys deflagrou engenhos pirotécnicos”, pelo Expresso.
A história do portal que levou de Nárnia para um restaurante no Cacém, cerca de 500 “adeptos” do Sport Lisboa e Benfica que, como bons portadores de fair play e espírito de camaradagem desportiva, deflagraram pirotecnia dentro do restaurante, causando pânico, danos materiais e intervenção policial. Não contentes com a proeza, receberam os agentes da PSP com arremesso de garrafas, copos e claro, foguetes.
Em suma, apesar do Portugal democrático do século XXI ser um dos países mais seguros do mundo, existe, sem qualquer dúvida, criminalidade violenta e organizada. Esta, no entanto, a não ser que FC Porto, Sporting CP e SL Benfica sejam um caso sério de popularidade no Bangladesh, Mato Grosso e Islamabad, parece não ser perpetuada pelas comunidades de imigrantes a quem são apontados dedos e palavras acusadoras, sem base fixa na realidade.
Sendo segurança um tema muitíssimo digno de discussão, assim como migrações (e muito há a falar sobre essa matéria em Portugal), se queremos reduzir a criminalidade violenta em Portugal, afigura-se mais eficaz e proveitoso investigar e actuar sobre os referidos grupos organizados de “adeptos” de futebol, do que sobre a técnica de unhas Brasileira, o condutor de TVDE Paquistanês ou o estafeta de pizzaria que nasceu em Dhaka, pelo menos se a sua proveniência for o critério.
De resto, haja saúde e um bom jogo de bola.


