O Burlão nas Índias – Alain Ayroles & Juanjo Guarnido

Com 2025 a chegar ao fim e outras leituras mais extensas a decorrer, tive a inconformada e divertida companhia de Dom Pablos, nesta época natalícia.
Mas a este muito peculiar protagonista, já lá vamos.
Antes, queria começar por dizer-vos que conheci O Burlão Nas Índias no Amadora BD, Festival Internacional de Banda Desenhada, onde me chamou à atenção entre dezenas de outros títulos tão fascinantes como belos (os olhos também comem, e na BD mais ainda).
O grafismo, do qual partilho alguns exemplos, é incrível, fruto da arte do ilustrador Espanhol Juanjo Guarnido. Não sendo de todo igual, por algum motivo que não sei identificar traz-me à memória o fantasioso e igualmente galhofeiro estilo de desenho do jogo The Curse of Monkey Island, que a LucasArts lançou em 1997.
Não vos vou mentir: a qualidade do desenho, a expressividade dos personagens, a cor e a beleza das paisagens, valem o preço do livro, mas a parte gráfica está longe de ser o único atributo de excelência desta obra.
A história, criada pelo escritor Francês Alain Ayroles, e o seu protagonista não ficam atrás.
E sobre Dom Pablos, há muito que se lhe diga.
A primeira coisa a dizer é que este não é o seu primeiro rodeo, e tampouco é às talentosas mãos deste par de autores que deve a sua criação.
Não.
Dom Pablos, além de matreiro é alma antiga, sabida, dono de uma antiguidade inalcançável ao comum mortal.
Bem conservado que se nos apresenta, é menino para ter à volta de 400 anos. Mais coisa menos coisa.
É filho da pena de Francisco de Quevedo, e já protagonista da sátira El Buscón de 1626.
Esta, que acompanha precisamente as aventuras e desventuras de Don Pablos de Segóvia pelo país vizinho, acaba com a ida para as Índias Ocidentais e a promessa de um relato ainda mais conturbado do que o de El Búscon.
Este, infelizmente, nunca chegou.
Quevedo nunca o escreveu e, passados 393 anos, Ayroles e Guarnido, assumindo que este já não o faria, decidiram dar à aventura deste burlão uma sequela digna de nome.
Assim, ao longo das 160 páginas deste livro, acompanhamos vida e obra de Dom Pablos, desde a sua atribulada infância na urbe Castelhana até ao sem número de peripécias e empreendimentos duvidosos em que se envolve no Novo Mundo.
Esta longa viagem além do Atlântico é acompanhada por gargalhadas, apertos de coração, criatividade, miséria, personagens muito coloridos, uma surpresa ou três e, não sei já disse vezes que cheguem, ilustrações fenomenais.
Excelente companhia para dias frios!
Desejo-vos a todos uma entrada em 2026 com o pé direito… e boas leituras!

P.S.: Em Portugal, esta obra é publicada pela Editora Ala dos Livros, em cujo site podem adquirir o dito (presentemente com um desconto de 20%).

